Mostrar mensagens com a etiqueta Contos do Mar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Contos do Mar. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 26 de maio de 2009

Um Naufrágio Sem Náufragos (4ª e última parte)

(continuação – 4ª e ultima parte)

Foi fácil encontrar os pescadores que se encontravam nas paragens na manhã do naufrágio. A maior parte, absorvidos pelo seu trabalho, não havia prestado uma atenção particular à escuna. Outros tinham-na olhado quando ela se dirigia para a costa, mas não haviam visto qualquer outro navio a aproximar-se do J.C.Cousins.
Os investigadores investigavam esses testemunhos de onde ressaltavam dois factos: 1º- nenhum marinheiro se encontrava suficientemente perto da escuna no momento da sua mudança de rumo para poder fornecer um testemunho probatório; 2º- os vigias do cabo Canby só haviam visto alguns pescadores naquelas paragens.
Impunha-se uma conclusão lógica. Se se ativessem à hipótese da fuga da tripulação, só poderia ter sido num barco ligeiro ou camuflado como tal que essa fuga poderia ter tido lugar.
Restava determinar as razões do abandono da escuna. Zeiber não poderia ter afundado deliberadamente a sua embarcação? Porquê? Para receber o montante do seguro, conjuntamente com o armador e de acordo com ele?
Esta vigarice é regularmente invocada a propósito de naufrágios inexplicados. Dois casos recentes. Primeiro o do petroleiro Olympic Bravery que encalhou em Oussant, a 26 de Janeiro de 1976. Acusaram o seu comandante a ter sido o próprio a causar o naufrágio da sua embarcação, segura em 25 mil milhões de francos antigos. Acusação que revelou falsa. Aconteceu o mesmo com outro petroleiro gigante, o Salem que se afundou a 17 de Janeiro de 1980, a 105 quilómetros a sul de Dacar. A Loyd’s de Londres recusou-se a pagar os 84,2 milhões de dólares, valores do petroleiro e do seu carregamento, suspeitando que o comandante tinha, ele próprio aberto um rombo no seu navio.
Para o J.C.Cousins, os seguradores tiveram a mesma reacção. Insinuaram, por conseguinte, que Zeiber tinha atirado a sua escuna voluntariamente contra a costa, depois de ter saído de bordo. Recusaram-se a pagar ao armador os 40 mil dólares que este lhes reclamava.
Foi instaurado um processo. No decurso das audiências, a testemunha principal foi um fantasma, o de Alonso Zeiber. Os juízes deram razão ao requerimento dos seguradores. O armador recebeu apenas 4 mil dólares.
Este processo não pôs fim ao enigma. O inquérito encontrava-se em ponto morto. Admitindo que houvera fraude comercial, onde estava Zeiber e os seus homens?
Supuseram que eles haviam embarcado em outros navios. Controlaram as listagens de tripulações de embarcações que chegassem regularmente aos portos americanos. Nenhum dos marinheiros da escuna naufragada constava dessas listas.
Teriam podido, é verdade, embarcado sob um outro nome com a cumplicidade dos “contratadores de homens” que forneciam os marinheiros aos comandantes com falta de pessoal. Esses marinheiros eram, por vezes, homens procurados pela Policia, homens a quem forneciam documentos falsos. Não era impossível que os membros da tripulação do J.C.Cousins se fossem estabelecer numa ilha do Pacifico ou num porto estrangeiro até que, beneficiando da prescrição do seu crime, pudessem regressar aos Estados Unidos. O que quer que tenha acontecido, nunca mais se ouviu falar deles.
Quanto a Zeiber, era uma personalidade demasiado conhecida dos comandantes da costa oeste dos Estados Unidos para passar despercebido para continuar o seu ofício num navio estrangeiro, tendo os comandantes formado uma espécie de franco-maçonaria internacional cujos membros se encontravam de porto em porto ao acaso das escalas.
Precisamente, assinalaram Alonso Zeiber em Singapura. Depois em Punta Arenas, no estreito de Magalhães. E ainda em Madagáscar, em Diego Suarez. As testemunhas juraram que se tratava realmente de Zeiber. Estavam tanto mais persuadidos disso porque ele fugira à aproximação dos seus antigos colegas.
Nenhuma certeza, contudo, em tudo isto. Essas aparições de Zeiber encontravam-se envolvidas na mesma névoa em que mergulhava aquele assunto. Um assunto que mantinha todo o seu mistério. A hipótese de vigarice não passava de uma hipótese. Zeiber e os seus homens ter-se-iam prestado a uma operação cujos riscos eram grandes e os lucros pequenos?
Este naufrágio sem náufragos permanecerá, sem dúvida, para sempre um segredo do mar.
É longa a lista de navios cujo desaparecimento é um enigma. Eis alguns exemplos recentes: no final do mês de Dezembro de 1975, o Berg Istra, um navio norueguês de transporte de minerais, um gigante de 224 mil toneladas, evaporou-se no Pacifico, perto das Filipinas. Foram encontrados dois sobreviventes, após quinze dias de buscas, num escaler pneumático. Declaram que, encontrando-se na ponte, ouviram um enorme barulho. Foram projectados para o mar. O Berg Istra partiu-se em dois e afundou-se em alguns minutos. Em Dezembro de 1978, o alemão München volatilizou-se a 400 milhas dos Açores. Tinha emitido alguns S.O.S., mas é em silêncio que Berge Venga, um outro gigante, irá ao fundo no Atlântico Sul, no final de Outubro de 1979. Não se encontraram nem destroços nem corpos.
Estes naufrágios no alto mar têm o seu mistério. É, contudo, paradoxal que um navio desapareça perto de terra, esse elemento estável e seguro, e o enigma do seu mistério se encontre no mesmo local. Assim aconteceu com o Don. (O Enigma do Don – próximo conto..)



Fim

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Um Naufrágio Sem Náufragos (3ª parte)

(continuação – 3ª parte)

O J.C.Cousins continua a fender as águas, ligeiramente inclinado sobre o estibordo, com as velas bem içadas, sem desviar a sua rota um grau sequer.
Perante aquele absurdo suicídio do navio, agarravam-se á ideia de esperar um acontecimento imprevisto, uma espécie de milagre, como por vezes acontece no mar: uma brusca rajada que poderia afastar a escuna dos recifes, uma vaga profunda que a arrastasse para longe de paragens perigosas.
Os refifes estavam a cerca de 500 metros…400 metros…
O J.C.Cousins prosseguiu o seu rumo implacável.
Nada o podia já salvar agora.
Era o fim. Um fim que parecia irreal e cujas imagens são descompostas, com um filme rodado em câmara lenta. Os mastros tremiam. Inclinavam-se para a frente. As velas drapejavam e dobravam-se umas sobre as outras. O casco continuava a avançar e, curiosamente, tinha-se a ilusão que os próprios mastros ficavam no lugar. Essa deslocação durou um, dois minutos. Depois, a escuna fez uma meia volta sobre si própria, encaixou-se no recife e, em breve, não era mais de um monte de tela de madeira, um caos negro e branco, qualquer coisa de indefinível, cujo aspecto trágico é desenhado pelo Sol brilhante e o céu azul.
*
Do cabo Canby, os vigias haviam seguido, estupefactos, o extraordinário naufrágio do J.C.Cousins. Tinham alertado os guarda-costeiros da estação de salvamento mais próxima. Um escaler foi descido, de repente, ao mar.
A aparição do escaler de salvamento naquele tempo calmo e naquele mar de óleo suscitou o espanto dos marinheiros que cruzavam a baía e que não haviam visto o drama. Pensavam que um navio começara a arder ou que alguém caíra à água. Tratava-se de uma outra coisa que os próprios salvadores não conseguiam explicar. Pelo menos, esperavam ficar a conhecer a verdade do acontecimento pelos náufragos do J.C.Cousins, que imaginavam estar a nadar á volta dos destroços.
A aproximação ao espigão de Clatsop foi fácil para o escaler de salvamento pelo fraco calado. Evitou os bancos e pôde aproar a uma pequena enseada, não longe do local do naufrágio.
Os salvadores acorreram ao navio destruído e esforçaram-se primeiramente para o desembaraçar das velas que cobriam a ponte. Esperavam descobrir os marinheiros que podiam estar feridos ou enfiados debaixo dos amontoados de tela e alavancas quebradas. Ergueram uma vela triangular, por baixo da vela grande, uma verga. Procuraram, chamaram e não encontraram nada.
- Devem ter abandonado o navio num escaler – disse o guarda-costas.
- Então, não deve estar longe – respondeu um dos camaradas.
O escaler não estava longe, com efeito. Estava no seu posto, na popa, quase intacto, apesar de algumas avarias nos bordos.
- Então partiram na canoazinha – disseram ainda.
A canoazinha foi descoberta, esmagada sob o amontoado de cordas.
Os salvadores visitaram o interior da escuna. Tiveram de derrubar a golpes de machado a porta da câmara, que estava bloqueada.
Ainda uma ou outra vez chamaram.
Ninguém.
Uma única explicação para a ausência da tripulação: Zeiber e os seus homens, vendo o naufrágio fatal, haviam saltado para o mar. Nesse caso, teriam chegado à costa. Não tardariam a encontrá-los.
Os salvadores exploraram o cabo Adams. Alguns coelhos fugiram sob os seus passos. Algumas aves marinhas esvoaçaram. Chamaram, bateram os arbustos que se cruzavam nos bordos dos rochedos.
Nenhum sinal dos náufragos.
Os rostos dos salvadores ensombraram-se. Os náufragos podiam ter sido arrastados pela corrente. Sem dúvida poderiam ter nadado para o largo, esperando socorro.
O escaler de salvamento afastou-se dos recifes, foi ao longo da costa a velocidade reduzida, seguiu a direcção da corrente. Sobre a água, nada mais havia do que ramos, algas, detritos sem interesse. De tarde enquanto as buscas prosseguiam, investigadores procederam uma busca aos destroços. Sendo a avaria do leme a primeira hipótese que se impunha, examinaram em primeiro lugar, a ponta do leme de direcção, as ferragens, a transmissão. O leme e os seus comandos funcionavam normalmente.
Desconcertados, os investigadores questionaram-se então se não seria necessário procurar a explicação do naufrágio, não nos destroços, mas na sua tripulação.
*
Alonso Zeiber era bem conhecido em Astoria. Tinha reputação de ser um bom marinheiro, um pouco invejado pelos seus confrades. Gostava de beber, mas nunca fora visto a subir a bordo em estado de embriaguez. A sua tripulação era composta por homens de experiencia, com prática em todas as tarefas de pilotagem, conhecendo perfeitamente o estuário da Columbia. Quanto à escuna, mantida num cuidado quase maníaco, encontrava-se sempre em bom estado de funcionamento.
Questionavam todos os que haviam visto na véspera da sua partida. Ninguém notara nada de anormal no seu comportamento.
A 6 de Outubro, o J.C.Cousins ancorara durante a noite nas proximidades de Mary Taylor, um rebocador especialmente afecto a pilotagem dos vapores. Os seus homens haviam sido os últimos a ver o J.C.Cousins antes do drama. Interrogaram-nos.
- Pudemos observat a escuna – disse o comandante do rebocador. – Saiu de perto da minha embarcação durante a tarde do dia 6, esperando as correntes de maré que lhe permitissem transpor facilmente a barra. Zeiber chegou a fazer-me uma saudação amigável e disse-me algumas palavras que não compreendi. Sem dúvida uma das eternas piadas sobre os que “dão à manivela” e sobre os nossos supostamente cobertos de suor.
- Durante quanto tempo andou assim ás voltas?
- Até às 17 horas, mais ou menos.
- Onde se encontravam vocês nessa ocasião?
- Frente ao cabo Ilwaco.
- Que rota seguiu então?
- Virou a Oeste e desapareceu no horizonte. No crepúsculo. Fiquei surpreendido por ver o J.C.Cousins voltar para junto da costa. Conclui então que não se tinha apercebido do veleiro de três mastros que devia pilotar e que esperava pela aurora para partir de novo.
- Foi então que ele ancorou de novo, perto de vocês?
- Sim, a quatrocentos ou seiscentos metros.
- Tem a certeza que se tratava do J.C.Cousins?
- Absolutamente certo. Não havia luar, mas a noite estava suficientemente clara para se reconcer a silhueta característica da escuna. Não era possível qualquer dúvida, na verdade.
Insistiram.
- E tanto durante a tarde, quando o J.C.Cousins circulava nas proximidades do vosso rebocador, como à noite, quando ele voltou a ancorar perto de vocês, não repararam nada de anormal?
- Que quer dizer?
- Teria uma avaria na mastreação, por exemplo? Mantinha-se na sua rota?
- Uma avaria que justificasse o seu regresso? É possível. Mas como já afirmei, quando ele voltou já era noite. Se houvesse uma avaria, ela não devia ser muito grave, uma vez que Zeiber partiu logo pela manhã e rumou ao largo.
- Vocês viram a escuna dirigir-se ao espigão de Clatsop?
- Não. Voltei a Astoria para procurar um vapor.
Os homens da tripulação confirmaram as declarações do seu comandante. Um deles, que estava de quarto naquele momento, viu a escuna partir de madrugada. Levava todas as velas içadas e afastou-se rapidamente.
O diário de bordo, que foi reencontrado intacto sob os destroços, apenas continha referencias práticas: rota, vento, pressão barométrica. O último registo datava do dia 7, de manhã: «partida às 8 horas, Rumo oeste».
Havia ali uma contradição em relação ao homem do rebocador, segundo o qual a escuna deixara o seu ancoradouro ao amanhecer, portanto, bastante antes da hora registada no diário de bordo.
Como explicar aquela contradição? Um numero mal escrito, um oito em vez de um cinco? Era possível. Um erro de Zeiber? Era menos provável. Ou então este só mencionara a hora que efectivamente dirigia o veleiro de três mastros francês.
Deixaram para mais tarde a solução deste enigma, aliás secundário. Voltaram à causa do naufrágio. Uma vez que não podiam incriminar o estado da escuna, pensaram numa falha humana. Mas qual?
Supuseram – era necessário supor tudo – que ocorrera uma rixa a bordo por qualquer razão, embriaguez ou disputa. Examinaram minuciosamente a cabina, o refeitório dos oficiais, os aposentos da tripulação. Tudo ali estava em ordem. Não descobriram qualquer tipo de luta. É verdade que esta podia desenrolar-se na ponte. Os corpos dos homens mortos ou feridos teriam oscilado sobre a amurada e caído e o J.C.Cousins teria continuado sozinho a sua rota, em direcção aos recifes.
- Há qualquer coisa que me preocupa – disse um inspector. – Suponhamos que a tripulação tenha desaparecido, por qualquer razão que seja. Nesse momento a escuna ficou entregue a si própria. Vocês acreditam que, privada de timoneiro, ela possa ter continuado uma rota fixa sem ziguezaguear, sem mesmo bordejar, mesmo que fossem alguns graus?
Uma objecção de peso. Contudo os acasos do mar eram grandes; era possível que a escuna, sem ninguém ao leme descrevesse um arco de círculo, depois tivesse seguido uma rota diametralmente oposta à primeira, não mais de bombordo, mas, desta vez, a estibordo.
Decorreram duas semanas.
O inquérito parou.
Nenhum corpo fora descoberto.
Este naufrágio sem náufragos parecia de tal modo inverosímil que supuseram que os homens do J.C.Cousins não estavam mortos. Hipótese absurda? Mas tudo era absurdo naquele extraordinário acontecimento de mar e não tinham o direito de negligenciar o menor indício.
Informações das famílias dos desaparecidos não deram muito resultado. Zeiber e os cinco membros da tripulação eram solteiros e apenas possuíam pais em lugares longínquos. Interrogados, estes declararam que não haviam visto nenhum dos desaparecidos deste naufrágio. E, contudo, como teriam saído de bordo? O escaler e a canoazinha, já o vimos, haviam permanecido na escuna.
Um transbordo para outro barco? Se tivesse acontecido, poderia ter-se fixado o momento: quando a escuna cessara de se dirigir ao largo para iniciar a navegação que a iria conduzir à costa, essa mudança de rumo seria explicada pela ausência da tripulação.
O inquérito seguiu outra orientação. Procuravam agora o barco no qual teriam embarcado os homens da escuna.
Os guardas costeiros do cabo Canby não forneceram qualquer informação útil. Apenas haviam verdadeiramente observado o J.CCousins a partir da sua mudança de rumo. Alguns barcos tinham-nos visto, sem dúvida, mas nenhum que lhes parecesse suspeito. Tratava-se, para a maior parte deles, de barcos pesqueiros. (continua)



Nenhum sinal dos náufragos.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Um Naufrágio Sem Náufragos (2ª parte)

(2ª parte)
O comandante Alonso Zeiber, não vendo o veleiro que devia pilotar, sem duvida decidira ancorar perto da costa para o esperar. Contudo, o andamento da escuna tinha qualquer coisa de estranho. Ao aproximar-se de terra, a sua velocidade não diminuiu, pelo contrário, aumentou. Por outro lado, a sua rota dirigia-o para paragens perigosas, atulhado de recifes e de bancos, notadamente o perigoso espigão de Clatsop, no qual mais do que um navio encalhara por causa da bruma, do mau tempo ou ainda da inexperiência dos seus comandantes.
O J.C.Cousins cortou a rota de um pequeno veleiro cujos tripulantes observavam o andamento da escuna com estupefacção. Estupefacção também experimentada pelos vigias do cabo Canby. Onde ia, portanto, Alonso Zeiber, esse marinheiro credenciado? Porque é que ele, que conhecia todos os perigos da costa, dirigia a sua embarcação em direcção a paragens que tinha feito evitar tantas vezes aos navios que pilotava?
- Certamente uma avaria – disse um dos vigias.
Isso poderia ser verdadeiro. A barra do leme estava bloqueada em consequência da quebra da transmissão. Ou um navio destruído tinha abalroando-o, falseado a ponta do leme. Nesse caso, porque Zeiber não levava as suas velas, não tentava uma manobra, uma volta desesperada de bordo? Ou ainda porque razão não fundeava as suas âncoras para evitar uma catástrofe?
Perguntas sem resposta. O J.C.Cousins continuava o seu curso em direcção à costa. O seu curso mortal. A bordo deviam já distinguir a mudança de cor do mar que anunciava os baixios e essa ligeira ressaca que revelava os bancos de areia. E, por trás desses bancos, o espigão Clatsop, e ainda por trás, a ponta Adams, esse esporão rochoso que encobria matas de pinheiros finos com os troncos torcidos pelos ventos do largo. E tudo isso, para a escuna, tinha a face de um naufrágio.
Um naufrágio absurdo. Causado nem pela tempestade, nem pela bruma, mas por uma força maléfica, uma força misteriosa que empurrava o J.C. Cousins em direcção a terra.
Se Zeiber não retomasse o controlo da sua embarcação, o casco elegante, o velame harmonioso, aquela obra-prima da construção naval, não seria em breve mais do que destroços, um emaranhado de madeira, cordame e telas que uma próxima tempestade dispersaria.
E esse naufrágio, essa morte de um navio, parecia tanto mais absurda, quanto teve lugar naquelas águas calmas, com aquele bom tempo, sob uma luz radiosa que simbolizava todas as belezas e todas as felicidades do mar.
O espigão de Clatsop não estava a mais de uma meia milha do J.C.Cousins. Estava ainda a tempo de dar meia volta. Havia ainda água suficiente diante da escuna para que esta evoluísse, para que ela passasse rente aos bancos de areia, para que retomasse ao largo, isto é, à vida.
Dentro de cinco ou dez minutos no máximo, seria demasiado tarde.
(continua)

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Um Naufrágio Sem Náufragos

Agradecemos novamente ao Luís Guerra pela participação activa no blog, especialmente nesta parte mais literária que nos permite "navegar" até quando não estamos no mar !

Um Naufrágio Sem Náufragos é o 2º conto desta série "Contos do Mar". Como o anterior, faz parte das Histórias Maritimas Extraordinárias de Robert de la Croix.

Um Naufrágio Sem Náufragos (1ª parte)


O Ourang Medan foraencontrado com a sua tripulação morta. Sobre os destroços do J.C.Cousins não havia ninguém. Como se esse veleiro tivesse sido tomado pela loucura, entregou-se a uma navegação extraordinária e náufraga – um naufrágio por causa do bom tempo, inexplicável – e, sobre os destroços, nenhuma pista do comandante e dos seus homens. É o enigma absoluto.
Estamos a 7 d Outubro de 1883, na costa oeste dos Estados Unidos, à entrada de Columbia cujo estuário é atravessado por navios que se dirigiam para Astoria, Longview, Vancouver ou Portland. Um estuário insalubre, com uma barra perigosa e correntes inconstantes que podiam atingir seis a oito nós, correntes que conduziam a escolhos ou bancos de areia, como o banco Baker ou “o espigão de Clatsop”, de sinistra reputação. Os comandantes, sobretudo os dos navios estrangeiros, recorriam, por conseguinte, aos barcos - pilotos para poderem transpor as passagens sem dificuldades.
Naquela época, o mais conhecido desses barcos - pilotos era o J.C.Cousins. Não só porque o seu comandante, Alonso Zeiber, era um hábil manobrador que sabia desarmar as ratoeiras das correntes e evitar os escolhos e os baixios, mas também porque a sua embarcação é uma bela escuna: casco fino e elevado, dois mastros inclinados sobre a popa e acabamentos luxuosos em teca e acaju.
O J.C.Cousins, antes de ser um humilde e dedicado barco - piloto, fora um iate que pertencera a um milionário de São Francisco, iate célebre ao longo da costa californiana. O seu proprietário, seja porque estivesse demasiado velho para navegar, ou seja porque tivesse tido demasiados reveses de fortuna, vendera a escuna a uns armadores de Astoria , que fizeram dele um barco - piloto e confiaram o comando ao comandante Alonso Zeiber.
Na véspera desse dia, portanto 6 de Outubro, o J.C.Cousins cruzara ao largo do estuário. Tinha como missão pilotar um veleiro de três mastros francês proveniente do Japão e que subia até Portland. O veleiro tardava. No crepúsculo, o J.C.Cousins arribou a uma pequena enseada. De manhã, os vigias de Fort Canby, onde se encontrava uma estação de salvamento, viram a escuna levantar âncora e com todo o velame erguido, meter rumo a oeste ao encontro do veleiro de três mastros francês.
Estava bom tempo. O sol espalhava uma fina luz, como polvilhada sobre um mar de um vede azulado por onde se insinuavam os rastos azuis pálidos das correntes. Barcos de pesca com velas multicolores seguiam as suas redes. Os rolos de fumo de um rebocador pairavam num ar calmo. Um veleiro de três mastros manobrava para entrar no estuário. A costa, que se tornava branca nos nimbados longínquos duma ligeira bruma, dominada pelo cume coberto de neve do monte de Santa Helena, enquadrava este quadro marítimo de onde se desprendia uma impressão surda de felicidade e de equilíbrio. Felicidade e equilíbrio que simbolizavam a pirâmide de velas imaculadas que ultrapassava o elegante casco negro do J.C. Cousins, imagem de uma divindade reinante sobre a beleza do mar.
De repente, qualquer coisa naquele quadro quase demasiado perfeito alterou-se. E precisamente por causa da escuna. Ela seguia a boa velocidade, apesar da brisa suave, deixando atrás de si um fino rasto de espuma sussurrante. Percorrera algumas milhas quando mudou de rota. Uma mudança primeiramente quase imperceptível, de alguns graus. Depois, como sob um brusca volta de leme, o J.C.Cousins navegou paralelamente à costa durante cerca de um quarto de hora antes de se dirigir a terra.
Os barcos de pesca continuaram a puxar as suas redes. O rebocador aproximou-se do veleiro de três mastros. Um veleiro saía do estuário, majestosamente e fazia-se ao largo. A luz estava ainda delicada, sugerindo calma e felicidade de viver. E eis que esta harmonia foi quebrada pelo andamento louco, incompreensível, da escuna, rumo a um objectivo misterioso.
(continua)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

UM RADAR HUMANO NO SÉCULO XVIII - 3ª e última parte

UM RADAR HUMANO NO SÉCULO XVIII - 3ª e última parte

(continuação – 3ª / última parte)

Sente que Bottineau lhe pede o seu apoio, mas ele não quer e não pode comprometer-se com uma questão que, de resto, não é da sua competência
Despediu cortesmente o seu visitante com vagas promessas.
Perante esta solidão, Bottineau, num momento desencorajador, reagiu.
Os segredos da sua nova ciência, esta “nauscopia”, chamada a alterar os métodos de navegação, serão revelados ao público. Decide-se mandar imprimir, à sua custa, uma obra que, espera, chamará a atenção, dos indiferentes e convencerá os incrédulos. Iria ser então conhecido o segredo de Bottineau?
Abramos o livro. Bottineau conta, antes de mais nada, as circunstâncias da sua descoberta e apresenta a relação dos seus sucessos.
Depois, passa às explicações: «Quando uma unidade se aproxima de terra ou de outro barco, produz-se um meteoro de natureza particular». Qual é esse meteoro?
«Os vapores voláteis, encerrados no seio do mar, escapam-se através das esteiras e elevam-se em rebuliço para compor um vasto invólucro que avança com ele».
E de onde vêm esses «vapores voláteis»? Escutemos ainda Bottineau: «O vasto numero de animais, de aves, de produções vegetais, de minerais, decompõem-se no seio da água, produzem uma fermentação continua da matéria (…) Quando o mar é posto em movimento por uma tempestade ou por uma massa activa (um navio, por exemplo), os vapores voláteis escapam-se das profundezas e elevam-se como fumaça, compondo um vasto invólucro em redor do barco. Esse invólucro avança com ele e aumente a cada momento por causa das novas emanações».
Bottineau precisava que esses vapores se confundiam geralmente com a atmosfera, mas, a partir do momento em que o navio atinge uma posição em que ele se mistura com outros vapores homogéneos, tais como os que se escapam da terra, apercebemo-nos que essa nuvem adquire consistência e cor, devido à mistura das duas colunas opostas».
Por outras palavras, o navio fica rodeado por uma espécie de nuvem que, encontrando uma outra nuvem, se tornaria visível a um observador experimentado.
«Toda a minha ciência», afirma ainda Etienne Bottineau, «reside na capacidade de seguir a aparição desse meteoro, (…) Para estas observações não é necessário qualquer telescópio ou instrumento matemático, os olhos são suficientes».
Bottineau esperava que a publicação da Nauscopia chamasse a atenção sobre ele. O director do Journal General de la France, o abade de Fontenay, falou, com efeito, para denegrir Bottineau, cujo livro não suscitou nele senão “menosprezo e escárnio”. Não eram navios no mar que Bottineau vira, mas «castelos nas nuvens».
É o inicio de uma campanha de difamação que o infeliz Bottineau, já deprimido pelo silencio do marechal de Castries e a reserva de Bernardino de Saint-Pierre, suporta mal. Protesta, grita contra a perseguição. O abade de Fontenay continua os seus ataques. Bottineau ameaça instaurar-lhe um processo. A polémica agrava-se ao redor deste homem bizarro, vindo de uma ilha longínqua, que tem a pretensão de ver navios por detrás do horizonte. Uns gritavam perante a impostura. Outros admitem que a teoria e as experiencias de Bottineau podem abrir novas perspectivas à ciência. Entre estes últimos, um médico militar da guarda do conde de Artois, que também é físico. Acaba de publicar um tratado de óptica no qual critica as teorias de Newton sobre a luz. A «nauscopia» intriga-o. Implica, sem dúvida, uma nova hipótese de da propagação dos raios luminosos. O nome desse médico? Jean-Paul Marat, o futuro “amigo do povo”.
Além disso, Marat interessa-se pelas coisas da navegação. Segue os trabalhos dum dos seus raros amigos (tem um carácter difícil), Abraham Breguet, nascido na Suíça como ele, o relojoeiro que vai pôr em ordem um cronómetro da Marinha. Marat privilegia, por conseguinte, a importância da «nauscopia» para os navegadores.
Há uma outra razão para o interesse e a simpatia que Marat nutre por Bottineau. Este é uma espécie de perseguido. A ciência oficial e as pessoas no poder consideram com indiferença ou com despreza a “nauscopia”. Ora ele, Marat, sofre também por causa da atitude dos membros da Academia das Ciências a seu respeito. É preciso dizer que o comportamento de Marat não facilita nada as coisas. Contra os seus detractores, utiliza injúrias, vias de facto e até ameaças de duelo!
É Marat que aconselhará Bottineau a instaurar um processo ao seu principal detractor, o abade de Fontenay. É ainda Marat que enviará dois exemplares de Nauscopia a algumas personalidaddes, na Inglaterra, sem qualque resultado aparente, aliás. É talvez também sob seu impulso que Bottineau terá efectuado experiencias no porto de Brest. Brenardino de Saint-Pierre faz alusão às suas experiencias no registo das suas conversas com Bottineau e afirma que estes haviam falhado.
Parece, finalmente, que a protecção desordenada de Marat não foi nada benéfica a Bottineau. Aliás, Marat abandonará, pouco a pouco, a ciência pela actividade política e o autor da “nauscopia” perderá o seu último protector.
Minado pele decepção e pela incompreensão dos seus compatriotas, Etienne Bottineau morreu numa data que se pode situar por volta de 1788.
Levou consigo o segredo da “nauscopia”.
«Se devo acabar a minha vida com decepção e humilhação», escrevera Bottineau, «antes de ter podido explicar a minha descoberta, o mundo será, sem dúvida, privado durante um certo tempo de uma arte que teria feito as honras do século XVIII».
Sobre a natureza desta arte ainda se interrogam as pessoas, O caso de Etienne Bottineau representa um enigma. Não se pode falar de impostura. Os testemunhos das suas visões são demasiado numerosos para que se possa falar de ilusão colectiva, tanto mais que esses testemunhos provêm de pessoas, a priori, incrédulas e nada suspeitas de indulgência face a Bottineau.
Seria ele dotado de um dom excepcional? A recolha de factos históricos refere o caso de um siciliano capaz, a partir do promontório de Marsala, de distinguir os navios que entravam no porto de Tunis, a uma distância de duzentos quilómetros. Os anais médicos citam alguns casos parecidos. Por exemplo, o de uma inglesa que vivia em Suffolk, no decurso de 1950. A sua acuidade visual era duas vezes mais forte do que um indivíduo normal.
Admitindo, todavia que Bottineau fosse também dotado duma tal visão, o alcance desta teria sido de qualquer modo inferior ao alcance dos binóculos dos vigias. Ora os testemunhos são formais: Bottineau descobria a presença dos navios muito antes destes últimos.
Era então uma miragem? Era uma das hipóteses de Bernardino de Saint-Pierre e, depois dele, de certos escritores científicos. Mas uma miragem produz-se em circunstâncias fortuitas e bem determinadas. No mar, nomeadamente, é preciso que a água seja mais quente do que o ar. É inconcebível que essas condições tenham sido produzidas durante todas as observações de Bottineau – uma quinzena de anos. A hipótese da miragem, ou em rigor, da observação do voo das aves, não pode ser considerada senão em casos muito precisos.
Resta uma outra explicação: a do próprio Bottineau na sua Nauscopia . Sublinhemos bem que ele não afirmava ver os navios mas somente os meteoros que se encontravam em redor deles. Mas o que são exactamente esses meteoros que têm forma, cor, consistência? É preciso confessar que o que nos diz Bottineau nos deixa perplexos. Lendo bem as suas explicações, não chegamos a compreender a natureza exacta desses meteoros. A conclusão será que, mesmo se a acuidade visual de Bottineau fosse normal, a retina dos seus olhos seria extremamente sensível a certas colorações, a certas estruturas da atmosfera.
(…) Na obra Invisible Horizon, Vincent Gaddis expõe uma teoria sedutora, por muito que seja frágil. «As observações de Bottineau», escreve ele, «eram não de carácter objectivo, mas subjectivo. Os “meteoros” consttituem projecções do seu próprio espírito.» Por outras palavras, Bottineau tinha poderes de vidência e a essa vidência completamente interior, ele dava inconscientemente uma aparência física.
O caso Bottineau continua a ser para nós, como para os seus contemporâneos, um enigma por resolver. No entanto, faz aparecer um desses sonhos incensatos como por vezes o mar suscita. O sonho dos homens, a quem a luta quotidiana com ele teria conferido um pouco dos poderes mágicos que lhe concedemos.
F I M

quinta-feira, 26 de março de 2009

UM RADAR HUMANO NO SÉCULO XVIII - 2ª parte

UM RADAR HUMANO NO SÉCULO XVIII - 2ª parte
(continuação)

A 25 de Outubro de 1781, no meio da fumaça e do trovão das salvas de honra, uma esquadra de seis unidades ancorou diante de Port-Louis. A população apertava-se na praia e nos molhes para admirar as pirâmides de velas resplandecentes de brancura sob o sol e o clarão das bandeiras multicolores. O governador de Souillac, numa embarcação drapejada de púrpura, foi saudar, no Hero, um marinheiro ilustre: Pierre André de Suffren, de Saint-Tropez; o glorioso Suffren, comandante de navio e comendador da Ordem de Malta, que acabava de se evidenciar na guerra da independência da América e se dirigia ao mar das Índias para combater os ingleses.

Suffren desembarcou sob bandeirolas de boas-vindas e aclamações da população. Agradeceu a Souillac pela recepção.
- Pudemos preparar-nos atempadamente para o receber com todas as honras a que tem direito – disse Souillac.
- Sem dúvida, enviou uma corveta de reconhecimento? – Perguntou Suffren.
- Não, foi graças a um homem dotado de um poder surpreendente. Anuncia a chegada de navios com vários dias de antecedência.
Suffren espantou-se.
- Vários dias, diz você? O homem possui, portanto, qualquer instrumento aperfeiçoado?
- Não, senhor comendador, assegurei-me disso.
- Uma visão penetrante, então?
- No principio pensei isso, mas trata-se de outra coisa. Um homem estranho, na verdade, sobre o qual gostaria ter a sua opinião.

Apresentaram Bottineau a Suffren, que olhava com espanto. Esperava ver uma espécie de feiticeiro, com os olhos brilhantes num rosto emaciado, um profeta do mar, um ser inspirando ao mesmo tempo temor e fascínio, e tinha diante de si um homem atarracado e terno, com a aparência de um modesto funcionário.

- O senhor tem, segundo me disseram, um dom que muitos marinheiros poderiam invejar. Portanto, como faz?
Houve um silêncio. Bottineau sempre se recusara a revelar a natureza do seu poder. Ousaria conservar o mesmo mutismo perante Suffren?
- Observo os fenómenos que rodeiam os navios no alto mar – respondeu Bottineau.
- Mas então?
- É difícil explicar-lhe em poucas palavras, senhor comendador. Este fenómeno é como um meteoro, num invólucro gasoso que rodeia o casco e as velas.
- E você vê esses meteoros?
- Distingo-os nitidamente, sim.

Suffren franziu o sobrolho. Esta explicação parecia-lhe muito vaga. Manifestamente, esse Bottineau queria manter o seu segredo ou, sem dúvida, procurava sacar-lhe algum dinheiro. De resto, pouco importava. Suffren imaginava os serviços que tal homem podia prestar num navio.

- Levo-o comigo para bordo – disse ele bruscamente a Bottineau.
Este ultimo sobressaltou-se.
- Isso seria uma grande honra para mim, senhor comendador; mas a minha idade, o meu estado de saúde…
- Você poderia iniciar os marinheiros nos seus métodos?
- Creio que sim.
- Bem, no meu regresso a França, vou falar nisso ao marechal Castries. Encontraremos certamente qualquer solução que concilie os seus interesses com os do Rei.

A frota de Suffren partiu. E, no Mar das Índias, alcançou um rosário de vitórias com nomes sonoros: Providen, Negapatan, Trinquemale, Gondelour; o regresso a França e a glória para aquele que os indianos haviam denominado de “o almirante do diabo”.
Nem os fumos dos combates nem dos incensos, haviam feito esquecer a Suffren a silhueta de um homem pequeno que, na Ilha de França, se apercebia dos navios a uma dezena de léguas de distância. E Suffren falou de Bottineau ao ministério da Marinha. Este desde a carta do governador da Ilha de França, deixara de ser um desconhecido.
A intervenção de Suffren decidiu o Marechal de Castries propor a Bottineau dez mil libras de prata com mais uma pensão de mil e duzentas se este revelasse a sua descoberta.

Bottineau é feliz? Tem finalmente aquilo que deseja? Pois bem, não. Permanece reservado. Sente-se, sem dúvida, lisonjeado com a confiança do ministro da Marinha e com o apoio de Suffren, mas quer ir pessoalmente a França «para levar os primeiros princípios da nova ciência».
Suffren ficou surpreendido com o que pensou ser, inicialmente, uma forma de se escapar e, por um momento, duvidou: Bottineau seria uma espécie de vigarista e o seu famoso método não seria fruto da sua imaginação? Contudo, os factos falavam por si, patentes, irrefutáveis. Sobre este assunto temos uma estatística: de 1778 até ao principio de 1782, Bottineau anunciou a chegada de 575 navios com dois ou três dias de antecedência. Reflectindo, Souillac pensou que Bottineau desejava uma notoriedade que somente Paris poderia dar-lhe. Estava convencido que quando este, dando andamento ao seu projecto, embarcou em Fevereiro de 1784.

Vimos que, no Le Fier que o levava a França, Bottineau espantava os oficiais prevendo a proximidade de terra e esse espanto foi, para ele, de bom augúrio. Não duvidou que o sucesso e a glória o esperavam em França.

Desembarcou, por conseguinte, em Lorient e partiu para Paris cheio de esperança. Mal chegou, apresentou-se no ministério da Marinha, apresentou um memorial e regressou uma semana depois para pedir uma audiência ao marechal de Castries. Esperou uma resposta durante demasiado tempo. Por fim, disseram-lhe que o seu memorial estava em estudo e que o ministro o receberia mais tarde.
Bottineau não compreende. Insiste. O ministro sabia que era ele: este escrevera a seu respeito ao governador da Ilha de França, propondo mesmo uma pensão para ele, Bottineau. Tiveram um gesto evasivo. Numerosos memoriais estavam em estudo. Devia esperar a sua vez.
Bottineau procura então ver Suffren. O grande marinheiro, que foi promovido a vice-almirante e que toda a cidade de Paris aclamou alguns meses antes, está na Provença, no seu castelo de Saint-Cannat.

Bottineau sente-se desamparado. Em Port-Louis era uma espécie de celebridade. Em Paris era um anónimo, um tagarela que se vangloriava de ver navios às dezenas e a dezenas de léguas. Esforça-se, contudo, por ultrapassar a sua decepção, e procura apoios.
Acredita tê-lo encontrado. Começam a falar de um naturalista que também é escritor: Bernardino de Saint-Pierre. Publicou a Viagem à Ilha de França e, três anos mais tarde, o seu Paulo e Virgínia conferiu-lhe uma definitiva notoriedade. Ora, Bottineau encontrou Bernardino de Saint-Pierre na Ilha de França. Foi visitá-lo e expôs-lhe a razão da sua estadia em Paris: a divulgação de uma nova ciência que ele chama de “nauscopia”.

Bernardino de Saint-Pierre estudara a vida dos pássaros. Sabia que, observando o voo de certas espécies dos trópicos, pode anunciar-se a chegada de navios com muito tempo de antecedência.
Bottineau interrompeu-o.
- Não se baseia no voo dos pássaros.
- Talvez uma miragem – disse Bernardino de Saint-Pierre.
E cita a aventura do seu amigo, o pintor Joseph Vernet que, estudando o céu, no decurso de uma viagem de Itália, viu nas nuvens «uma cidade caída com sinos, torres, casas». Vernet apressou-se a fazer um croqui, depois descobriu a sete milhas dali, essa mesma cidade cuja imagem estava reflectida nas nuvens.
Bottineau interrompeu-o de novo.
- Não se tratava de miragens. A “nauscopia” consiste em observar os meteoros que suscitam os navios no mar.
Bernardino de Saint-Pierre escuta-o com atenção, mas continua circunspecto. «Há», disse ele prudentemente, «na natureza uma infinidade de coisas desconhecidas ao homem. A sua descoberta pode ser uma delas».

(continua...)

quarta-feira, 18 de março de 2009

UM RADAR HUMANO NO SÉCULO XVIII (1ª parte)

UM RADAR HUMANO NO SÉCULO XVIII - 1ª parte
(tirado de "Histórias Marítimas Extraordinárias" de Robert de La Croix, conto XVII, editado pela primeira vez em 1996 em França.)
Um naufrágio simboliza o fracasso do navio. É também, por vezes, o fracasso do homem, que não conseguiu aperceber-se a tempo do baixio ou da rocha sobre os quais se ferirá mortalmente o casco.

A invenção do radar, que permite ver o invisível, trará um importante elemento de segurança para os navegadores.
Cerca de um século e meio antes, um homem pretendera possuir um estranho poder.
Precisamente, o de detectar, a mais de uma centena de quilómetros de distancia, um navio ou uma costa.

Eis esse homem na ponte do navio Le Fier, que ia de Port-Louis, ilha de França (hoje ilha Maurícia), até Lorient. Um dos oficiais do Fier, o primeiro-tenente Dufour, olha para esse homem com curiosidade. Este tem o aspecto de um modesto empregado ou de um peque no burguês, com um rosto comum, com quarenta insignificantes anos e contudo, representa simultaneamente um enigma e um sonho.

Primeiro um enigma, porque esse passageiro possui um dom extraordinário: distingue a dezenas de léguas um navio ou uma costa invisíveis para os vigias mais experimentados e munidos de monóculos.

Em seguida um sonho. O dos navios tendo a bordo marinheiros com os mesmos poderes que este estranho passageiro. Então, nunca mais encalhariam numa costa desconhecida; nunca mais sofreriam um abalroamento na bruma; nunca mais haveria naufrágios sobre os rochedos. E, nas unidades de combate, a possibilidade de detectar a presença do inimigo, de o perseguir, de o atacar de surpresa.

Foi no dia 16 de Março de 1784 que o passageiro se aproximou de Dufour, quando este ultimo estava de quarto no tombadilho.

- Sabe, por certo, senhor – dissera o passageiro – que se encontra a trinta léguas de terra? Com este vento de sul arriscamo-nos, esta noite, a ser desviados para a costa, se não nos afastarmos.

O primeiro-tenente, surpreendido, voltou-se para o passageiro e perguntou-lhe com um ar trocista:

- O senhor é marinheiro?

- Já fui, durante uns anos, na Companhia das Índias.

- E em que baseia a sua afirmação?

- Antes de lhe responder, gostaria que se assegurasse da veracidade do que acabo de lhe dizer.

Intrigado, Dufour desceu a sala de navegação e debruçou-se sobre a carta marítima. A partir do
último ponto, traçou a rota do navio tendo em conta a velocidade e a derivação calculada. Verificou que o Le Fier se encontrava mesmo a umas trinta léguas da costa de África, como anunciara o passageiro.

- O senhor possui assim uma visão tão apurada? – perguntou Dufour a este último, estupefacto.

- Tenho, de facto uma boa visão, mas não o suficiente para descobrir um navio ou uma costa invisíveis.

- Mas então como é que faz?

- Baseio-me na observação de certos fenómenos. Queira desculpar-me por não poder adiantar mais nada. Reservo o primor da minha descoberta ao Ministro da Marinha, o Marechal de Castries. É esse mesmo o objectivo da minha viagem a França.

E o passageiro rodou sobre os calcanhares.

***

Foi em 1770 que Etienne Bottineau chegou a Port-Louis, na Ilha de França. Começara a navegar como aprendiz de piloto com a idade de quinze anos (começo relativamente tardio; muitos marinheiros embarcam como grumetes com oito ou nove anos).
Bottineau abandonou a navegação para ocupar um lugar em terra, nos escritórios do rei. Só abandonava o seu trabalho para longos passeios à beira-mar. Passeios sempre solitários. Andava lentamente, como se meditasse. Por vezes, parava, olhava fixamente a linha do horizonte, por muito que o mar estivesse deserto.
Sofria então uma estranha metamorfose. O seu rosto crispava-se, como sob o efeito dum mal-estar, impressão que acentuava ainda a rigidez do corpo. Pensavam que ele fosse cair, vítima de um ataque. Depois, após cinco ou dez minutos, as suas feições distendiam-se. Os seus lábios desenhavam um vago sorriso e Bttineau ia para sua casa.

Um dia pediu para falar com o governador da Ilha de França, o senhor de Souillac, sobre um assunto importante. Este não tinha por hábito incomodar-se por um simples empregado. Fê-lo ser recebido por Foucault, o seu intendente.

- Queria prevenir o senhor Souillac – disse Bottineau - que uma esquadra de três unidades se dirige para Port Louis. Se os ventos continuarem favoráveis, serão avistados antes de três dias.

Foucault franziu o sobrolho.

- Como é que você sabe?

- É difícil explicar em poucas palavras, senhor intendente. Senti a sua aproximação por causa de alguns indícios.

Foucault esteve quase a perguntar quais poderiam ser esses indícios, mas não quis perder mais tempo com uma cabeça manifestamente desarranjada. Levantou-se e mandou embora o oportuno.

Três dias mais tarde, saindo da sua casa, foi abordado por Etienne Bottineau.

- Você outra vez! – disse Foucault irritado.

- Só uma palavra, se faz favor. Permito-me fazer-lhe ver que as minhas previsões estavam certas. As três unidades que lhe anunciei já chegaram.

Foucault permaneceu silencioso antes de murmurar, como para si mesmo: « Mas… é verdade.»

Depois acrescentou, irónico:

- O acaso fez bem as coisas.

- Tomarei a liberdade de lhe remeter um bilhete quando me for possível fazer novas observações – disse Bottineau , nada perturbado.

- Como queira – respondeu Foucault.

E afastou-se, esperando não voltar a ver aquele tagarela.

A sua esperança foi em vão. Quinze dias depois, recebeu um bilhete de Bottineau anunciando a chegada de quatro embarcações antes de dois dias.

- O homenzinho quer que falem dele – pensou Foucault.

Por curiosidade, perguntou aos vigias, que observavam o largo a partir das colinas que rodeavam a cidade, se eles haviam avistado algumas velas. Os vigias perscrutaram o mar com os seus monóculos: o mar encontrava-se deserto.

E assim continuou no dia seguinte. Mas na madrugada do dia seguinte, quatro pontos negros apareceram no horizonte. À noite, quatro unidades ancoraram em Port Louis, como previra Bottineaul.

Desta vez, Foucault, impressionado, advertiu o governador. O visconde de Souillac encolheu os ombros.

- Esse Bottineaul deve ter ligações com pescadores. Ou então inventou algum monóculo mais possante do que os nossos. É preciso tirar isso a limpo. Ou talvez o acaso tenha ajudado uma segunda vez. Vamos ainda esperar.

Souillac esperou uns quinze dias. Desta vez, Bottineau predisse a chegada de uma fragata muito antes dos vigias.

- Curioso… - disse Souillac.

Não tirou ainda qualquer conclusão sobre os pretendidos poderes de Bottineau. A questão intrigava-o e divertia-o, assim como começou a intrigar e divertir os habitantes de Port-Louis. Apontavam a dedo o homenzinho apagado e silencioso, que não parecia nada afectado pela curiosidade que suscitava.

Bottineau, tornou-se, pouco a pouco uma espécie de celebridade. Perguntaram-lhe se podia prever também o tempo e o futuro. Bottineau não se zangava e contentava-se em sorrir. Imperturbável, continuava a enviar bilhetes a Souillac, que ficava sempre de reserva, ainda que a sua desconfiança em relação a Bottineau se tivesse atenuado. Este último não parecia sentir-se afectado nem com a desconfiança nem com a zombaria dos habitantes do Ilha de França confessará mais tarde que sofrera, com efeito, com os sarcasmos de que fora objecto).

Por vezes, um marinheiro ou um soldado abordavam-no.

- Barcos à vista, senhor Bottineau?

- Precisamente. Três dentro de dois dias.

- Aposto um luis em como não chegarão.

Bottineau aceitou a aposta. E ganhou-a. Excepto quando uma acalmia retardava os barcos ou quando estes passavam ao largo sem parar em Port-Louis. «Pude assim ganhar uma soma
considerável», dirá Bottineau.

Pouco a pouco, conseguiu suscitar o interesse e a simpatia de Genu, o seu superior hierárquico, do procurador do rei, Lebras de Villeviderne, do capitão de infantaria Trebont. Essas pessoas
intervieram junto do governador. Ettiene Bottineau, asseguraram, não era um impostor. Dispunha de um poder singular, mas bem real.

Souillac acabou por convocar Bottineau. Ele prometeu-lhe escrever ao marechal de Castries, o ministro da Marinha. Talvez este lhe concedesse uma pensão em troca do seu segredo. Castries respondeu que, antes de tomar qualquer decisão a respeito de Bottineau, desejava que este realizasse uma série de observações num espaço de oito meses, sob o controlo das autoridades. Bottineau aceitou, com a condição de não ser vigiado e de poder usufruir de plena liberdade de movimentos.

( continua..)

Contos do Mar

A partir do dia de hoje, por iniciativa do nosso aluno Luís Guerra, começamos a rubrica Contos do Mar.

Serão editadas pequenas short stories ou contos em episódios relativos à vida no mar ou de qualquer forma ligados ao mar.
Uma oportunidade para narrar experiências vividas, para reviver situações e todas as sensações que o mar é capaz de proporcionar: porque a literatura do Mar, além de ter uma forte carga emotiva, reconduz àquelas categorias humanas de desejo de conhecimento, descoberta e auto-afirmação.

Se dentro de ti está um "Além" que pede para ser descoberto, com estas leituras tentaremos ajudar-te a consegui-lo. Entretanto desejamos uma boa leitura, entre as velas do Sonho ou do Eu autêntico...